Alma, Sexo e Glamour

Christina Aguilera nunca se coibiu de provocar. Ao longo da maior parte da sua carreira, e especialmente com o seu famoso videoclipe Dirrty, procurou usar o sexo como um aríete irónico para pontuar e promover a sua música. Dotada, porém, de uma voz celestial (ou diabólica), mostrou que tem mais para dar que vácuos devaneios pop. No seu último CD, Back to Basics, Aguilera abandona a sua personagem Xtina/Grande Meretriz e converte-se numa vampe loura platinada ao estilo de Jean Harlow, armada de um som soul revivalista mas, ao mesmo tempo, surpreendentemente novo.

“É desta música que eu gostava em criança”, nota Aguilera. “Há nela muita emoção e vulnerabilidade, e também muita dor, sentimentos com que me identificava quando era uma rapariguinha com um ambiente familiar violento. Ouvia aquelas canções vezes sem conta, para me abstrair da destrutividade que existia na minha casa. Eram a minha fuga, e por isso sempre me senti profundamente ligada a esse tipo de música.”

Ao render homenagem a Billie Holliday, Aretha Franklin e várias influências da soul e do jazz dos anos 20, 30 e 40, Aguilera corre o risco de desagradar à maioria dos seus fãs, na faixa da adolescência, e de provocar a hostilidade dos críticos por estar fora da sua coutada ao interpretar clássicos do passado. Mas a antiga garota do Clube Disney mostra que é uma mulher de armas quando se trata de utilizar todos os recursos da sua voz. Além disso, é refrescante ver uma diva da pop abandonar o território que lhe é familiar para dar um abanão no seu destino artístico.

A revolução musical de Aguilera ocorreu no contexto do seu casamento, há ano e meio, com o produtor discográfico Jordan Bratman. Na entrevista que se segue, a cantora reflecte sobre a sua recente metamorfose musical e pessoal.

É notável a sua transformação em Back to Basics. Gosta de reformular a sua imagem e a sua música?
Para mim, é importante explorar diferentes rumos musicais e artísticos. Não é apenas um estratagema ou uma manobra publicitária, porque não é uma estratégia prudente, longe disso. Gosto de pensar que estou a correr alguns riscos artísticos ao apresentar este tipo de música, porque sei que não é isso que as pessoas esperavam de mim. Mas acho que é uma atitude saudável.

E o visual Jean Harlow/anos 40?
Quis mudar a minha aparência de modo a que ela reflectisse o que estava a sentir em termos da música que me interessava fazer. No meu caso, entrar no espírito da música ajuda-me a aproximar-me do espírito dos tempos e dos artistas de uma época. O bâton vermelho, o penteado e o visual fazem parte da minha integração na vida e na música desse tempo. Tal como um actor, entro numa personagem e quero viver na sua pele.

Foi-lhe difícil “vender” um álbum assim à sua editora?
Há alguns anos mudei de produtor. Adquiri um controlo muito maior sobre a música que faço e estava determinada a gravar um álbum deste género. Acho que já atingi um nível de êxito que, de alguma forma, me dá o direito de mudar de rumo e não me limitar a fazer outro CD parecido com o Stripped ou o que quer que o público estivesse à espera ou fosse comercialmente mais rentável. Adoro esta música e penso que haverá muita gente interessada em me ouvir num registo diferente, com tanta alma, emoção e sentimento.

Acha que um CD deste tipo amainará um pouco a tempestade e a controvérsia que o seu álbum Stripped e o videoclipe Dirrty provocaram?
Não sei, acho que não tem nada a ver uma coisa com a outra. O álbum Stripped reflecte o meu lado sexual, que eu não tenho receio de expressar. Penso que as mulheres deviam abraçar a sua sexualidade, porque é uma parte fundamental da natureza humana e não deve ser reprimida. Não se deve esperar das mulheres que obedeçam a quaisquer normas ou modelos de bom comportamento ou decência. Quem é que os define? As mulheres devem poder traçar os seus próprios limites.

Tem necessidade de provocar?
Gosto de ser capaz de ultrapassar barreiras, de ser ousada, de não me retrair. É a vantagem de ser cantora: posso libertar toda a energia que está dentro de mim e utilizar a minha música e a minha presença física para me definir e expressar emoções profundas. Não tive uma infância e uma adolescência fáceis – e com isto não estou a pedir às pessoas que sintam pena de mim ou coisa do género –, e este álbum exprime muitas das sensações que retenho dessa época da minha vida. Acho que é saudável falar destas coisas. A minha música tem uma vertente catártica.

É importante para si poder abrir-se ao público tal como faz neste álbum?
A tristeza é uma emoção que toda a gente pode partilhar e compreender, e espero que as pessoas encontrem algo nas minhas canções que as toque. É sempre bom saber que não estamos sós no mundo, que não somos os únicos a passar por momentos difíceis ou a não sentir a felicidade que desejamos.

Nunca teve medo de se vestir de forma bastante ousada ou de falar abertamente sobre sexo…
Adoro roupas sexy. Por que não haveria de gostar? É divertido sair por aí a pavonear os nossos dotes. É claro que podia ser mais discreta, recatada e reservada, mas não seria eu própria. Sinto-me bem com a minha sexualidade e com o meu corpo e acho que é uma atitude mais sadia do que sentir-me embaraçada em relação a questões que tenham a ver com o sexo ou ter vergonha de ser expressiva.

Mencionou um ambiente familiar hostil. [O pai de Aguilera, Fausto, batia na mãe até que esta o deixou, quando a cantora tinha sete anos]. Back to Basics foi uma forma de lidar com essa etapa do seu crescimento?
As letras e o que senti quando estava a cantar estas canções tiveram muito a ver com isso. A música tem o dom de evocar memórias e sentimentos quando a escutamos, e é isso que me acontece quando escrevo ou canto. É uma emoção avassaladora.

Uma das canções de Basics, Save Me From Myself, é dedicada ao seu marido, Jordan Bratman. Que efeito teve a presença dele na sua vida?
Quando se tem um pai violento, uma série de modelos masculinos muito negativos na nossa vida e se conheceu tipos pouco recomendáveis que tentaram manipular-nos, precisamos de alguém que possa modificar rapidamente essa percepção e salvar-nos das nossas piores tendências e atitudes. Jordan é o meu protector, o meu herói; afastou-me de todas aquelas paragens sombrias em que a minha mente costumava internar-se. Perdi muito tempo à procura de uma figura paternal nos homens errados, e Jordan é o primeiro homem na minha vida que realmente me amou e me tratou com respeito, como mulher e como pessoa. É muito importante para mim.

Como vê o seu casamento?
É uma coisa muito bonita. Tem sido uma revelação ter este homem forte e carinhoso na minha vida. Sei que ele está sempre disposto a apoiar-me e a defender-me. Embora possa não parecer, às vezes sinto-me frágil e vulnerável, e Jordan faz-me sentir muito mais segura.

Preocupa-a que a fama possa afectar o seu casamento, ou a possibilidade de poderem discordar quanto ao seu rumo artístico?
Jordan tem uma coisa excelente: não me quer moldar, quer deixar-me ser quem sou e seguir o meu instinto. É um homem muito calmo, muito sereno. Aconselha-me, mas de uma forma construtiva. Não há palavras para exprimir como é importante ter esta presença terna e reconfortante na minha vida. Esperei muito tempo para encontrar estas qualidades num homem.

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